segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Entrevista com Maria Helena de Almeida, marqueteira da campanha vitoriosa de Carlos Casteglione do PT


Eleições 2008


A última eleição para prefeito em Cachoeiro de Itapemirim está, para mim, entre os acontecimentos mais surpreendentes deste ano, já que as figuras que sempre dominaram o poder político na cidade (entenda-se aqui Ferraço, Valadão e Zé Tasso - que apoiou Ferraço-) perderam o pleito para uma nova força política, o petista Carlos Casteglione.

Vislumbrado por esse processo e tendo que fazer uma entrevista para a disciplina de Teorias e Práticas jornalísticas, usei como pauta tais eleições. A minha entrevistada foi a professora, jornalista e marqueteira política, Maria Helena de Almeida, responsável pela área de marketing da campanha do petista em Cachoeiro.

Maria Helena fala, metaforicamente, como o poder de Ferraço se constituiu na cidade e de que forma candidato do PT se apresentava no início e no final do processo. Ela avalia, ainda, o papel do marqueteiro político na campanha e as estratégias desenvolvidas para vencer esse pleito.




Entrevista


Contexto – Maria Helena, você conhecia a estrutura política de Cachoeiro antes de chegar à cidade para fazer a campanha de Carlos Casteglione?


Maria Helena (MH)- Em detalhes não. Eu conheço as forças políticas do Estado, as do sul e as do norte. Até porque como eu trabalhava na equipe de Jane Merie e ela já fazia a campanha de Ferraço, eu já o conhecia. Mas quando se está em uma equipe, não se tem a mesma oportunidade de conhecer o panorama político da mesma forma de quando se está na liderança de uma situação.


Contexto – E quando você chegou a Cachoeiro, qual foi a situação política que encontrou lá ?


MH- Em encontrei um cenário completamente dominado pelo “ferracismo”. Observávamos pelos grupos de pesquisa que ele [Ferraço] era um mito, um coronel no sentido de exercer sobre a coletividade um domínio. Isso vinha se perpetuando por mais de 30 anos e ele era a liderança local do sul do Estado.


Contexto – A partir desse panorama, qual foi a estratégia pensada para a campanha do petista ?


MH- A primeira coisa que em senti foi perplexidade, porque Casglione é um sujeito pequenininho, dócil e meigo que vem das comunidades eclesiásticas de base. E Ferraço é o coronel bravo que, entre aspas, põe a mão da espada para defender o território dele, maios ou menos um feudo ferracista. Para equiparar os dois, eu precisava empoderar Castaglione e , simbolicamente, dá a ele uma peixeira para o enfrentamento. Mas eu não poderia dar uma peixeira sem antes mostrar que ele era capaz de ficar com a peixeira na mão.


Contexto – Qual foi o maior desafio da campanha de Casteglione ?


MH- Pela via da lógica e da razão eu ainda não tenho todas as explicações, esse é um processo que tenho que analisar muito ainda. Mas uma grande dificuldade era tirar do imaginário popular a força de Ferraço. E eu comi isso um pouco todos os dias nos programas de TV...


Contexto – Mas você queria tirar a força de Ferraço ou dar força para Casteglione?


MH- Tirar de um e dá para o outro. A História me ensina que nenhuma ditadura dura para sempre, e a relação de Ferraço em Cachoeiro já estava um pouco desgastada. Então eu começava dizendo nas propagandas que nós íamos encerar um ciclo histórico, e que tinha aparecido naquele cenário um sujeito maduro capaz de levar os destinos políticos daqui pra frente. A primeira pessoa que tinha que acreditar nisso era o próprio Casteclione, tanto é que ele começa a campanha de um jeito e termina de outro. Ele foi amadurecendo no processo, a população amadureceu, e Casteclione mais ainda. Ele aceita essa interferência e no final do processo ele coloca simbolicamente a peixeira na mão, quando em um debate acusa Ferraço de mandar verba para Itapemirim ao invés de mandar para Cachoeiro.


Contexto - Qual foi o papel do Marketing Político na campanha ?


MH – O marketing não cria produto. Ela potencializa o que ele tem de bom. Isso se dá na ordem do objeto, mas se dá também na ordem do político. Não se pode criar uma liderança se ela não se sustentar. E Casteglione se construiu na militância do PT é amigo do Presidente Lula, é muito respeitado entre os ministros, ele tinha base para se firmar.


Contexto - Você acha que a imagem do Lula ajudou na eleição de Casteglione.


MH – Muito, o Lula vem de um momento histórico de 80 % de aprovação. No último momento da campanha eu colei a imagem do Casteglione a do Lula.


Contexto – Qual é sua avaliação geral da campanha?


Eu concluo que não existe campanha de um gênio só. Ela precisa de vários profissionais bons em áreas diversas, é o conjunto que faz a campanha vitoriosa, e o momento histórico. Se não houvesse em Cachoeiro um grupo de bravos guerreiros trabalhando em favor de Casteclione não teria sido possível.


Contexto - Então o Marketing por si só não define a campanha ?


O marketing pode muito, mas não pode tudo. A campanha é uma guerrilha e para que uma guerrilha tenha êxito eu preciso de muitos guerrilheiros em trincheiras diversas. Então eu quero contribuir muito para desmistificar essa coisa de que é o marqueteiro ganha a campanha.