domingo, 4 de maio de 2008


A novela Nardoni


O caso Isabela Nardoni se tornou uma verdadeira novela midiática, com tudo que uma novela tem direito: um enredo dramático (a morte trágica de uma linda menina de 5 anos, cujos principais suspeitos são o pai e a madrasta), capítulos diários, personagens principais (o casal Nardoni) e coadjuvantes (vizinhos, parentes do casal e a polícia). Há também um público interessadíssimo no caso e sedento por um desfecho.


Devemos agradecer á mídia nacional por essa nova atração que invade nossa casas todos os dias pelos meios de comunicação (principalmente pela caixinha mágica presente em 90% das moradias brasileiras). Ela conseguiu explorar um tema sério e trágico com uma cobertura sensacionalista e excessiva, uma vez que trouxe aos noticiários imagens e informações que não ajudam na compreensão do caso, apenas servem para provocar comoção na população e, com isso, conseguir mais audiência. Um exemplo claro disso, foi a publicação de cenas da formatura primaria de Isabela, depoimentos dos amiguinhos de classe da menina e a exibição da reconstituição do crime, dando ênfase às cenas que o perito simula a queda da menina.


Segundo declarações do Doutor em Antropologia, Roberto Albergaria, à Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2738145-EI6584,00.html), “há um lado doentio, e quem alimenta essa doença, que se tornou uma epidemia como a dengue, é a própria mídia. Porque há um viés ‘comunicacionista’ ao se alimentar de forma mórbida uma história trágica. E transformar essa história trágica numa novela, no mesmo estilo das novelas das grandes televisões: mexicana.” O Antropólogo levanta outra distorção do caso: “ajudada pelo mistério, a novela em que se transformou o caso Isabela vale mais do que os fatos, e tira do debate público temas mais relevantes”.


Albergaria aponta ainda que há um viés classista na abordagem do caso, o que rende uma maior visibilidade. “Porque é uma menina de classe média, bonitinha, e aí vem a estética. Se ela fosse muito feia, se ela fosse um pequeno ‘canhão’, não daria. As revistas semanais escolheram as fotos mais fotogênicas pra ressaltar isso”. A fala do professor pode ser facilmente comprovada por uma pesquisa da UNIFESP, feita na periferia de São Paulo, que aponta inúmeras Isabelas clandestinas que não são nem citadas na mídia. Segundo o estudo, 20% das crianças são vítimas de espancamentos, asfixia ou queimaduras, resultando em lesões ou fraturas. (pesquisa detalhada http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/noticias/gd180408.htm).


Mas não nos preocupemos com isso. Tudo indica que a mídia nacional conseguiu cumprir seu principal objetivo no caso da menina Isabela: a audiência de alguns telejornais cresceu até 46% na primeira quinzena de abril. O caso ainda rende muitas noticias e é abordado até mesmo nos programas matinais de culinária, para a dona de casa se emocionar já no início do dia.
Texto: Izaias Buson
Imagem: Mario Zuany

2 comentários:

carolinecalvi disse...

"Pessoas" em Brasília fazem a festa enquanto nós estamos perdendo o nosso tempo, esperando o fim dessa história dramática da menina Isabela. Que perda de tempo!Mas fazer o que... áfinal, dá ibope!

Beatriz disse...

É verdade!Isso já passou dos limites!A midia realmente tem que encontrar alguma coisa para a população fazer um alarde. Não importa a menina q morreu,nem a família,nada. Ninguém merece.Coitada da menina!